De Skater a Surfista

RITA_BRILHANTE

Rita Brilhante, foi uma das primeiras skaters a brilhar mais a sério em Portugal. Aos 17 anos, Rita começou a sua aventura sobre quatro rodas e, aos 25, uma nova paixão entra na sua vida: o surf. No skate, os melhores resultados apareceram em 2004, tendo vencido todas as etapas do cicuito nacional e uma Skatexpression em Bilbao. Entretanto, licenciou-se em Comunicação Empresarial e diz ser uma privilegiada por trabalhar naquilo que mais gosta. Com uma energia contagiante aos 30 anos e a uns dias de ser mãe pela primeira vez, Rita conta-nos como aconteceu a transição do alcatrão para as ondas. Mais uma grande referência do universo feminino dos desportos de acção que vale a pena ficar a conhecer.

Podes fazer uma retrospectiva sobre a sua carreira?
Não gosto de lhe chamar carreira. Vejo a minha relação com o skate na perspectiva do estilo de vida e não propriamente como um desporto, com objectivos competitivos, até porque com a idade com que comecei (17) e a inexistência de competição na categoria feminina, não faria sentido colocar as coisas dessa forma. Ainda assim, até 2007 participei em vários campeonatos (raras vezes com categoria feminina) e fiz o melhor que podia para continuar a evoluir.

Como cresceu a paixão pelo skate, e como foi enquanto competidora?
A paixão pelo skate surgiu imediatamente quando experimentei andar e, como qualquer paixão, é difícil explicar. A competição apareceu como uma forma de me fazer evoluir, mas no fundo sempre a encarei com uma competição contra mim própria porque, infelizmente, durante o tempo em que andei de skate havia muito poucas raparigas a andar e o nível era muito fraco.

E como foi o contacto com as outras atletas?
Sempre tive algumas amigas que andavam de skate, ainda que não com tanta regularidade e empenho como o encarava na altura. Algumas delas chegaram a entrar em campeonatos, outras não. Mas, o simples facto de andarmos juntas, era a parte mais divertida. Nos últimos anos em que entrei em campeonatos, começaram a aparecer mais raparigas, entre as quais a Marta Nery que foi a única que continuou a andar até hoje, mas a diferença de idades fazia com que não houvesse um grande contacto.

E da parte dos rapazes, sentias algum apoio?
Sempre andei mais de skate com rapazes do que com raparigas. Os meus amigos apoiavam-me, tal como os apoiava a eles. Não fazia grande diferença ser rapariga. Mas, de uma forma geral, fora do meu grupo de amigos acabava por haver vários que me incentivavam e eram muito mais do que os que criticavam.

Tiveste patrocínios? E eram suficientes para atingir os teus objectivos?
Felizmente tive os apoios suficientes para ter material para andar de skate que, no fundo, era o essencial. Houve alturas em que tive mais material do que outras, mas nunca deixei de andar por me faltar alguma coisa. Considerando que praticamente não existia skate feminino, penso que tive muita sorte em ter os patrocínios que tive.

Para ti, qual foi o resultado mais importante, e o que ficou por alcançar (títulos)?
O resultado mais importante, no fundo, foi ter feito parte dos primeiros campeonatos com categoria feminina em Portugal. Ficou por alcançar tornar isso em alguma coisa mais sólida. Gostava que hoje em dia as coisas estivessem realmente diferentes. Existe categoria num dos principais circuitos nacionais, mas a adesão ainda é fraca, apesar de haver mais raparigas com nível.

Ainda continuas a andar de skate?
Não continuo a andar de skate, mas também não posso dizer que nunca ando de skate. Acho que é inevitável pôr-me em cima do skate e dar algumas manobras de vez em quando. Mas é só mesmo de vez em quando e muito na brincadeira. De qualquer forma, e agora que estou a poucas semanas ou dias, de ser mãe, espero que consiga daqui a uns anos ensinar a minha filha a dar um ollie ou um flip, se ela quiser aprender, exemplificando!

Como e quando surgiu o interesse pelo surf?
O surf surgiu um ano depois de me ter convencido que era muito difícil continuar a conciliar o skate com o trabalho. O skate não era propriamente uma coisa que pudesse fazer de manhã antes de ir trabalhar e ao final do dia, principalmente no outono e inverno, não tinha como andar (não havia skateparques próximos ou locais iluminados). Na altura, no caminho para o trabalho, passava todos os dias pela praia e num deles pensei: “vou começar a fazer surf!”. O surf é completamente diferente do skate. Apesar de poder ser duro nos dias em que o mar está maior, há muitos dias em que é um verdadeiro momento para descontrair e respirar fundo. Além disso enquanto no skate só tinha prazer ao acertar manobras (o que pode ser realmente stressante), no surf – para mim – basta estar dentro de água para ganhar o dia.

Conta-nos como é geralmente o teu dia-a-dia. Como concilias o surf e trabalho?
Normalmente, saio de casa (em Carnaxide) por volta das 8h15 e vou até à Ericeira. Trabalho entre as 9h e as 18h, mais coisa menos coisa, e depois volto a casa por volta das 19h. Hoje em dia, a trabalhar na Ericeira e morar em Carnaxide, perco cerca de 2 horas por dia em deslocações e acabo por não poder surfar antes e depois do trabalho nos dias de semana. Houve uma altura em que o fazia “religiosamente” todos os dias. Mas, ainda assim, quando consigo surfar à hora de almoço tenho esse privilégio por trabalhar muito próximo de uma das minhas ondas preferidas (Ribeira D’Ilhas).

Do que costumas abdicar para poder fazer uma surfada/skatada?
De um almoço em condições porque para poder surfar durante a hora de almoço, tenho de comer “qualquer coisa” na secretária. Mas, compensa: muitas vezes fico com a barriga cheia apenas naquela hora que passa a correr.

Quais são as grandes diferenças entre o skate e o surf?
O espírito nos skaters e dos surfistas e, consequentemente o ambiente que se vive numa skatada e numa surrada, não tem nada a ver. Quando comecei a fazer surf, entrava na água e cumprimentava as pessoas que lá estavam. Demorei algum tempo a perceber porque não me respondiam. As pessoas não vão para dentro de água partilhar ondas, é pena. É difícil explicar a um surfista porque não há necessidade de haver regras de prioridade no skate, ninguém entende!

Como vês a evolução destas duas modalidades nos dias de hoje?
Tanto numa como noutra, o nível que apresentam surpreende-me todos os dias. Acompanho com regularidade e é impressionante: seja ao nível de competição, como de vídeos.

O que gostavas de ver melhorado enquanto praticante de skate e frequentadora das praias?
O skate realmente tem uma grande desvantagem em relação ao surf: precisa de infraestruturas. É complicado que não existam locais onde se possa andar de skate, principalmente no inverno (sem luz ou com chuva). Em relação ao surf, não tenho grandes comentários.

Qual a tua maior inspiração na vida?
Todas as pessoas que trabalham para conseguir concretizar os seus sonhos, sejam eles quais forem.

Em termos profissionais estás ligada ao mundo do surf. Podes dizer-nos se trabalhar no mundo do surf é particularmente diferente, ou achas que é o mesmo que ter outra profissão qualquer?
Para mim, é um verdadeiro privilégio trabalhar na minha área de formação e fazer exactamente aquilo de que mais gosto (independentemente de ser no surf ou no skate). Desde 2010 que trabalho com algumas das marcas mais influentes da indústria do surf e skate. Às vezes, o assunto do trabalho ser o mesmo dos tempos livres torna-se complicado: estás o dia todo a pensar em surf e depois vais surfar e, muitas vezes, cruzar-te com as mesmas pessoas com quem te cruzas no trabalho… Mas, por outro lado, estar o dia todo a pensar e a trabalhar sobre um assunto que te interessa não tem como não ser motivador!

Qual é o espírito que se vive dentro de uma grande empresa relacionada com o mercado do Surf?
É o melhor espírito possível que pode encontrar-se num local de trabalho, com a vantagem de que chegares com a prancha debaixo do braço não te descredibiliza enquanto profissional.

Por último, o que pensas d’A Onda da Rita’?
Acho que é um projecto muito interessante, já há alguns anos que o acompanho e, sem dúvida, que dá uma importante visibilidade ao bodyboard/ surf de uma forma geral, mas particularmente no feminino. Há muitos conteúdos a explorar nestes universos e o projecto tem sido pioneiro na forma como os colocou no grande ecrã.

Um sonho que gostasses de ver realizado?
A médio prazo, poder partilhar umas ondas com a minha filha. Fora isso, ser feliz todos os dias.

Entra aqui e vê a Rita Brilhante a andar de skate em grande estilo.

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