Entrevista com Filipa Leandro

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Filipa Leandro faz parte da primeira geração de surfistas femininas em Portugal. Faz surf desde 1989 e começou naquela que é apelidada por muitos como sendo o berço do surf no nosso país, a praia de Carcavelos. Filipa é licenciada em Relações Internacionais e tem um Mestrado em Ecologia Humana. Aos 41 anos, é mãe de três filhos, muito activa, alegre e sempre pronta para a diversão, tem uma grande adoração pelo surf que acabou por ser a sua vida, uma vez que se dedica diariamente às aulas de surf. Faz yoga em casa e leva o filho mais novo de bicicleta à escola, algumas vezes por semana, para a ajudar a manter a forma e poder tirar maior partido do surf.

Filipa do que é que mais gostas nesta vida, para além do surf?
Adoro rir, estar com amigos, brincar com os meus filhos. Viola e leitura são outras paixões, sem com isso dizer que toco ou leio muito, mas gostava de tocar (tento) e leio 2 páginas na cama, antes de cair p o lado. Sempre tive e tenho um grande prazer em viajar, já fui a cerca de 20 países, nos 5 continentes (agora 6!). Sou uma pessoa que tenta sempre disfrutar ao máximo dos momentos bons que a vida nos dá. Sou apaixonada pela natureza e pouco materialista, mas sei apreciar o que é bom… o material.

Quando e como é que começou o teu contacto com o mar?
Nasci em Carcavelos e vou para esta praia desde sempre. A minha mãe ficava comigo e com os meus 2 irmãos os meses de verão inteiros na praia.

Como foi a tua experiência em competição?
A minha experiência em competição teve os seus momentos. As vitórias souberam muito bem e as derrotas tiveram sabores amargos. Descobri durante a época de competição que não tinha cabeça para competir, tinha péssima selecção de ondas, não era agressiva o suficiente (por exemplo era incapaz de marcar alguém só para ganhar o heat) e a competição envolve muitas vertentes, das quais me faltavam algumas, por isso quando engravidei do meu primeiro filho em 2000, decidi deixar de competir, o que para mim foi um alívio. Eu competia mais por causa dos patrocínios e por ter uma grande pressão por ser das primeiras raparigas e ser necessário manter-me em “cena”.

Quem eram na altura as tuas adversárias principais?
Patrícia Lopes e Teresa Abraços, depois apareceram outras raparigas que vieram dar “luta”, como a Vera Gonçalves, a Carla Tomé, Liliana Dias, etc.

Esses momentos vividos nos campeonatos foram importantes para o resto da tua vida?
Foram momentos de grande aprendizagem (a gerir o nosso eu) e de muitos relacionamentos. Fiz amigas e amigos para a vida e isso é muito bom!

Que recordações guardas desses tempos e do que sentes mais falta?
Sinto falta das galhofas com a minha amiga Teresa Abraços, da liberdade de ir sem ter que me preocupar com mais nada a não ser em dar o meu melhor!

Actualmente, como concilias o trabalho com as surfadas e ainda com os filhos?
Tenho trabalhos em que sou eu que giro as horas, por isso consigo encaixar o surf, isto é, encaixo o trabalho. Bem, não é bem assim, num deles que é na Associação Portuguesa das Famílias Numerosas (APFN), giro os horários consoante as ondas, na Surftechnique durante a semana tenho algumas horas fixas e ao fim de semana coordeno os horários das aulas de acordo com as marés.

Conta-nos como é o teu dia-a-dia.
Fico de manhã um pouco com o Jaime em casa, depois levo-o à escola e, ou vou fazer surf, ou para a APFN, ou às compras, ou cozinho, ou arrumo a casa. Todos os dias são diferentes, a única coisa igual é que o tenho de levar à escola. Horários fixos de aulas de surf só tenho às 4ª e 6ª feira, à tarde. Por isso entre as mil e uma coisas que tenho de fazer como mãe, dona de casa, gestora da iniciação da Surftechnique, professora de surf e gestora das delegações a nível distrital da APFN, faço o meu surf e yoga e ainda convivo aqui e ali com os amigos que vão aparecendo.

Em que sentido a tua relação com o mar continua a ser importante nos dias de hoje?
É a minha salvação, a minha purificação. Às vezes basta o simples bico de pato para me sentir bem, rejuvenescida! Tenho uma relação muito forte com o mar, é a minha vida!

De que forma pensas que as novas gerações têm as suas vidas de atletas mais facilitadas em relação à época em que te iniciaste no surf?
Não tem nada a ver com o meu tempo, hoje só não evolui quem não quer, porque até pessoas sem jeito, mas com dedicação chegam onde querem. Há escolas de surf, skates carvers, exercícios de ginásio, managers, a evolução nas pranchas e tudo o resto que veio facilitar a vida de um surfista.

Os teus filhos já são praticantes de surf, que conselhos lhes dás?
Enjoy, mas cuidado com os outros!

O que pensas do projecto d‘A Onda da Rita’?
É mais um ponto de apoio aos atletas de hoje. É um projecto extraordinário. O que me agrada bastante é a diversidade dos assuntos, o que transmite e o incentivo que é à prática das várias modalidades.

Como vês o estado dos desportos de ondas em Portugal (Bodyboard vs. Surf)?
São desportos em grande evolução. Temos excelentes atletas, tanto no surf, como no bodyboard, pertencemos a um país com ondas extraordinárias e uma cultura de surf finalmente enraizada. Por isso, agora com a 2ª e a 3ª gerações a caminho, temos grandes chances de estar brevemente com vários atletas no top mundial.

De que forma o surf condiciona o resto da tua vida?
Condiciona de várias maneiras porque vivo do surf nos dois sentidos. Hoje em dia não tenho fins de semana porque é nesses dias que dou mais aulas de surf. Quando quero viajar penso sempre num lugar com ondas (se bem que estou cheia de vontade de ir às ilhas gregas…). Quando vou trabalhar para a APFN, revejo horários de acordo com as ondas, tenho uma filha completamente dedicada de corpo e alma ao surf, que poderá vir a ter uma carreira no surf que vou querer acompanhar, enfim vivo o surf. Abdicar? Talvez o estar com amigas, mais cultura, mais income, mais viola!

E um Sonho?
Ter os meus 3 filhos tão surfólicos como eu e fazer várias viagens pelo mundo a surfar com eles e talvez ter a minha filha no top mundial, se ela assim o quiser e quem sabe o doido/destemido do Jaime (que é o meu filho mais novo)!

FOTO: Rafaela Peralta.

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