Teresa ‘Abraça’ mais uma missão

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Teresa Abraços, local de S. João do Estoril, foi uma das primeiras surfistas em Portugal. Campeã nacional em 1996, Campeã Europeia por Selecções e 3º lugar individual, no Eurosurf 1997, na Irlanda e melhor portuguesa no WQS de 6 estrelas, na Ericeira em 2003, são alguns dos resultados que Teresa melhor recorda. Muito acarinhada por todos no meio surfístico, ao longo da sua carreira Teresa tem tido um papel interventivo a nível social, tendo doado os seus prémios monetários à Instituição Cáritas. Actualmente não compete e, conciliando com a sua profissão de Revenue Manager na TAP PORTUGAL, colabora, desde há um ano, com a Associação Portuguesa de Surf Adaptado. A dedicação e empenho que Teresa imprime nestas nobres causas ultrapassa a vertente meramente desportiva e fazem dela um ser humano único e exemplar.

Quando é que te iniciaste no surf e o que isso representou?
A minha iniciação no surf deu-se em meados dos anos 80, numa época em que não se viam raparigas a surfar no nosso país. O surf era uma actividade quase desconhecida em Portugal e estava muito associada a um estilo de vida algo marginal. A imagem do surfista, naquela altura, não era realmente a mais positiva: estava muito conotada com ociosidade, vandalismo, drogas, etc. e tenho que admitir que, infelizmente, havia muitos casos em que esta era a realidade.

Para além deste aspecto, iniciar-se no surf e evoluir era, naquela época, bastante mais difícil do que hoje em dia. Não tínhamos a facilidade de acesso a pranchas, fatos e restante material técnico pois não havia surfshops como agora e também não dispunhamos da quantidade de informação que há hoje (inúmeras revistas, internet, campeonatos internacionais no nosso país, etc.). No meu caso específico, sendo rapariga, tive ainda de lutar contra os preconceitos de uma sociedade em que o número de mulheres a praticar desporto era manifestamente inferior ao que temos actualmente e em que, caso praticassem, era geralmente uma modalidade tradicional e não uma actividade tão pouco convencional e desconhecida da maioria, como era o surf. Recordo ainda que há 30 anos atrás não era tão comum as pessoas irem passear à praia fora da época balnear, pelo que o facto de eu ir para lá durante todo o ano e ainda por cima entrar no mar, causava muita estranheza. Acho que no país todo não éramos mais do 4 ou 5 surfistas do sexo feminino. Realmente não foi fácil tentar quebrar todos estes estereótipos e enfrentar um ambiente por vezes muito machista, dentro e fora de água. De qualquer forma, foi um desafio fantástico e muito gratificante, sentir que abri portas para o que o surf feminino é hoje em Portugal e para a dignificação da imagem do surf em geral.

Como foi a tua experiência em competição?
A minha experiência em competição foi muito positiva, não só pelos resultados desportivos que fui conseguindo tirar, como também pelas amizades que fiz e pelos lugares fantásticos por onde passei.

Quem eram na altura as tuas adversárias principais?
Cá em Portugal a minha principal adversária era , sem dúvida, a Patrícia Lopes, mas a Té Ayalla e a Filipa Leandro também deram algum trabalho (risos). Hoje em dia estamos várias vezes juntas e fartamo-nos de rir quando recordamos as nossas peripécias nesses tempos. (risos).

Para ti, qual foi o resultado mais importante?
O resultado mais importante em competição foi o meu 3º lugar no Eurosurf na Irlanda.Os títulos de Campeã Nacional é óbvio que foram importantes, mas esta classificação a nível Europeu foi mais difícil de alcançar e deu ainda mais prazer porque veio contribuir bastante para que a nossa Selecção fosse Campeã Europeia pela primeira vez, roubando o título à França que já o detinha , salvo erro, há 18 anos!

Depois houve ainda outro resultado numa competição que também me marcou bastante, mas mais pelo seu lado caricato. Foi em 2003, já eu tinha deixado de competir há uns 5 anos, e quando faltavam uns 3 meses para casar. Por brincadeira o Pedro, meu marido, disse para me inscrever na etapa do Circuito Nacional que ía decorrer em Ribeira d´Ilhas, porque sabia que é uma onda que gosto muito e que, assim, iria ter a possibilidade de a surfar só com mais 3 pessoas. Além disso, tinha ouvido dizer que o prémio para a melhor onda era uma Playstation, o que seria óptimo porque até estávamos a mobilar a casa e por acaso nem leitor de dvd tínhamos. Entrei no campeonato e avancei até à final. O mais engraçado é que fiquei apenas em 2º lugar, mas fiz a onda mais pontuada de toda a prova, ganhando assim a tão desejada Playsation! Enfim…missão cumprida!(risos).

Hoje em dia como concilias o trabalho com o surf?
Toda a minha vida sempre tive de conciliar as aulas com o surf e, mais tarde, com o trabalho. É tudo uma questão de disciplina. Quando comecei a competir estava na Faculdade e sempre dei prioridade aos estudos. O surf era apenas aos fins de semana e nem todos! Depois de acabar o curso, comecei a trabalhar e era a mesma coisa. Naquela época não fazia qualquer sentido pensar em viver do surf em Portugal, ainda mais surf feminino! Hoje em dia mantenho o hábito quase religioso de surfar todos os fins de semana, embora esporadicamente consiga dar uma surfada num dia da semana.

Em que sentido a tua relação com o mar continua a ser importante nos dias de hoje?
O surf para mim é uma paixão enorme e, mesmo que por algum motivo não possa surfar, sou capaz de passar horas a ver outros a surfar ou apenas ondas a rebentar. Adoro mar!

De que forma pensas que as novas gerações têm as suas vidas de atletas mais facilitadas em relação à época em que te iniciaste no surf?
Sem dúvida que têm tudo muito mais facilitado. Como já referi, a imagem do surf na sociedade mudou imenso e para melhor. Com isso surgem muito mais facilmente uma série de apoios, tanto a nível familiar, como de potenciais patrocinadores. Para além disso, o acesso a material de surf e a toda uma panóplia de informação (vídeos, revistas,etc.) é actualmente enorme. Recordo-me que quando comecei a surfar, só ao fim de uns 2 anos é que vi pela primeira vez outra rapariga a surfar! Para além disso, hoje em dia há inúmeras escolas para iniciação, evolução e mesmo vocacionadas para a alta competição. Isso faz toda a diferença. A figura do treinador seria impensável quando me iniciei e até mesmo quando comecei a competir. Até ao nível da mobilidade para ir para outras praias quando não havia ondas à porta de casa era complicado. Para ir de S.João do Estoril até ao Guincho já era uma «aventura», quanto mais até à Ericeira… Não era usual termos carta de condução cedo, quanto mais carro! Lembro-me de ir a pé até Cascais, porque era proibido levar a prancha no comboio e depois ainda tinha de apanhar a camioneta que circulava de 2 em 2 horas! Isto para a nova geração é inconcebível. Saíamos de casa sem qualquer noção de como estava o mar. Hoje em dia temos à nossa disposição inúmeros sites de previsões e câmaras para vermos as praias!

Ultimamente tens colaborado com o Surf Adaptado. Queres contar quando começou e em que consiste o teu contributo?
Fazendo uma retrospectiva do que tem sido a minha vivência no mundo do surf, encontro algo que vai muito para além da componente meramente desportiva. Diria que quase pode ser entendida como uma missão. Começou, como já falei, por ser todo um reabilitar de uma imagem negativa do surf e do surfista há vários anos atrás, passando pela «reivindicação» do espaço feminino neste desporto (desde o tentar acabar com a discriminação dentro de água, à inclusão da categoria feminina no circuito nacional de surf e, posteriormente, também com direito a prémio monetário, foram alguns dos aspectos em que mais batalhei).

Posteriormente procurei ter também um papel mais interventivo na sociedade em geral, doando esses mesmos prémios monetários à Cáritas, aceitando convites para participar em corridas contra o racismo ou contra a discriminação das mulheres, por exemplo.

Foi seguindo um pouco esta linha de orientação que surgiu há um ano a minha decisão de colaborar com a Associação Portuguesa de Surf Adaptado (uma associação sem fins lucrativos e que tem como missão principal levar o surf a pessoas portadoras de deficiência motora, visual ou cognitiva). Acima de tudo, o que pretendemos é tirar estas pessoas de casa e proporcionar-lhes momentos muito agradáveis, quer pela experiência no meio aquático, quer pelo convívio com todos os voluntários e participantes. Simultaneamente, alertamos para a questão das acessibilidades, sobretudo nas praias. É fundamental haver passadeiras para que as pessoas de cadeiras de rodas possam chegar à areia e cadeiras anfíbias para chegarem ao mar e casas de banho adaptadas, por exemplo.

Só no ano passado realizámos vários eventos de norte a sul de Portugal Continental e ainda conseguimos levar estas acções aos Açores. Ao todo colocámos na água mais de 300 pessoas com deficiência. É sempre extremamente gratificante vermos a alegria que conseguimos proporcionar e, como costumamos dizer na Associação, não sabemos se quem se diverte mais são os participantes ou os voluntários.

Como vês o estado dos desportos de ondas em Portugal (Bodyboard vs. Surf)?
O surf no sosso país goza actualmente de uma mediatização enorme.O fenómeno das ondas grandes na Nazaré, a etapa do World Tour em Peniche, o Prime em Carcavelos e o World Tour feminino no Guincho vieram dar uma grande visibilidade. Entendo também que a presença do Tiago Pires no Circuito Mundial estes anos todos e agora a excelente prestação do Frederico Morais no Hawai têm sido de extrema importância para o surf estar a ter cada vez mais visibilidade nos meios de comunicação social não especializados.

No bodyboard temos também excelentes atletas, mas continuam a não ter a devida divulgação. De qualquer forma, acho que não é uma tendência exclusiva ao nosso país, mas sim mais global.

Qual a tua maior inspiração na vida?
Não tenho dúvidas de que a minha maior inspiração foram, e sempre, serão os meus pais.

Conheces o projecto “A Onda da Rita”? E o que tens a dizer acerca do mesmo?
Conheço e aproveito para dar os parabéns à Rita Pires pelo projecto, bem como a todos que nele colaboram. É uma excelente forma de divulgar o que se passa nos desportos de ondas, dando destaque especial à vertente feminina.

Um sonho que gostasses de ver realizado?
Um dos meus sonhos é ajudar cada vez mais pessoas com deficiência a surfar. Para isso gostava que todos os surfistas que me encontram em cada surfada, se fizessem sócios da Associação Portuguesa de Surf Adaptado. ?

Site Oficial da Associação de Surf Adaptado: http://www.surfadaptado.pt/socio.php

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